Fé, lágrimas e utopia
Eu também tenho mais perguntas do que respostas. Mas das respostas já não faço questão. Madame Guyon disse que “se as respostas às perguntas da vida são absolutamente necessárias para você, então esqueça a viagem. Você nunca chegará lá, pois esta é uma viagem de incógnitas, de perguntas sem resposta, de enigmas, de coisas incompreensíveis e, principalmente, injustas”. Andamos por fé. A fé não tem a ver com certezas, mas com confiança. Confiança em Deus, seu caráter justo, amoroso e bom. Jesus também fez uma pergunta e não obteve resposta. O que lhe doía não era a a falta de explicações, mas o desamparo. No dia da tragédia não precisamos de respostas, precisamos de alguém. Deus é suficiente para compreender nossa perplexidade, assumir posição de réu sob nossas dúvidas, e sofrer o peso da nossa dor. Assim creram os antigos: Deus é nosso refúgio e fortaleza, socorro bem presente na tribulação, pois nem a morte, pode nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus, nosso Senhor.Por Tiago Chagas, para o Gospel+
Eu também choro. Sei que a vida continua, que não posso ficar preso ao passado, que devo levantar a cabeça e seguir em frente, que tenho ainda minha própria vida para viver… Mas antes preciso chorar. Preciso acolher meu sofrimento, dar a ele boas vindas, permitir que a tragédia faça seu caminho até o mais profundo do meu coração, fazer com que a dor traga de volta lembranças abafadas pela correria da vida, promova arrependimentos, desperte sonhos adormecidos, traga para a luz memórias de afeto e alegria. Assim posso purgar tudo isso sem medo, vencer a escuridão com a coragem de chorar. Oferecer minhas lágrimas como a mais legítima das orações e o meu pranto como o mais sublime tributo de amor. Jesus também chorou diante da morte. Deus é suficiente para nos outorgar perdão, redimir palavras e gestos, recolher as palavras e gestos que jamais deveriam ter ganho concreção, e dar destino ao que ficou por dizer e fazer. Deus é bom e sabe amar, capaz de enxugar nossas lágrimas e dar sentido e significado ao nosso sofrimento. Assim creram os antigos: a tribulação produz.
Eu também fico indignado. Também não me conformo com os desmandos de um país que agoniza sob incompetências, negligências, imperícias, imprudências, e, principalmente, a corrupção sistêmica e a injustificada impunidade. Mas não vou permitir que isso me torne cínico e cético. Vou dar mais ouvidos aos idealistas, me agarrar às forças das utopias, me deixar levar nas asas da esperança. Vou arregaçar as mangas, arar a terra e semear o solo regado com o sangue dos justos e inocentes. Vou repartir como meu próximo os frutos do meu sofrimento, compartilhar o labor com tantos irmãos que ainda não se curvaram diante da mediocridade, não se deixaram vencer pelas forças das trevas, e não se intimidaram face aos promotores e mantenedores da morte. Jesus também sofreu, e não desistiu. Jesus também morreu. E sua ressurreição é não apenas convocação para a luta, mas garantia de vitória. Assim creram os antigos: eu sei que meu Redentor vive, e que por fim se levantará sobre a terra!
De vingança em vingança vamos destruindo o sentido da vida e a crença em Deus.
A questão é
muito complicada. Nossa cultura diz que a guerra é legitima e o terrorismo uma monstruosidade.
Os mortos da fome (11 milhões de crianças por ano), os mortos da
repressão politica e os mortos pelas guerras não tem importância, mas os mortos
do terrorismo são uma tragédia. Por que a guerra é legitima e o terrorismo
é ilegítimo? Os poderosos têm porta-aviões, submarinos nucleares, bombardeiros
de longo alcance e misseis intercontinentais. Os fracos têm canivetes,
estilingues e algumas armas obsoletas. A única alternativa que eles têm para
fazer a guerra é por meio da chamada guerra de guerrilha, atualmente denominada
de “guerra assimétrica”. Para ter algum sucesso na guerra, em meio a tantas
desvantagens, “os combatentes subterrâneos” ou “sem rostos” são obrigados a
realizarem missões suicidas, como aconteceu com os dezenove rapazes que
derrubaram as torres do World Trade Center, em Nova York, e parte do pentágono em
Washington, e como aconteceu também com o cabeludo Sansão, o mais pecador dos juízes
de Israel, que derrubou sobre si e sobre os filisteus o prédio onde estavam
mais de 3 mil pessoas (Jz 16.23-31).
A guerra é
legitima porque nós a legitimamos diante da impossibilidade histórica de
vivermos sem ela. Do mesmo modo temos legitimado a prostituição, o aborto o
consumismo, a lei do mais forte, o amor ao dinheiro, a pornografia, a eutanásia,
e o “casamento” de homem com homem e mulher com mulher. Ao comentar o novo código
civil, o famoso advogado brasileiro Paulo Lins e Silva, membro da Academia Internacional
de Legisladores Matrimoniais, com sede na Inglaterra, explica que os costumes
são a fonte da lei: “Repetidos no tempo formam jurisprudência e, depois, normas
legais”. (Época. 20/08/2001, p. 41). Se
a guerrilha fosse praticada pelos poderosos, muito provavelmente já teria sido
transformada em algo legal.
O editor
especial de super interessante.
Dennis Russo Burgierman lembra que o sul-africano Nelson Mandela, o palestino
Yasser Arafat, o israelense Menachen Begin e o americano Henry Kissinger, todos
comandaram ações terroristas e todos têm penduradas no pescoço “a medalha dourada
do Prêmio Nobel da Paz”.
Ao mesmo
tempo, a historia tem alguns exemplos de pessoas que se recusaram a matar
inocentes em nome de uma causa. “É o caso de Mahatma Gandhi, herói da independência
indiana, que pregou a resistência pacifica aos colonizadores ingleses”. Mas ele
jamais ganhou o Nobel da Paz. (super
interessante 10/2001, p. 49.)
Aqui esta
outra complicação notória. Mais por razões interesseiras do que por razões de
justiça (“O mundo depende da recuperação americana” e “os EUA servem de combustível
para a atividade produtiva dos quatro cantos do mundo”, o mundo inteiro (com
raras exceções), inclusiva alguns países árabes, está apoiou ação militar
americana contra o Afeganistão e o Iraque. Todos dizem que foi uma questão de
justa represália contra o atentado terrorista de 11 de setembro. Mas as organizações
terroristas explicam que atacaram os EUA também por represália por seus
desacertos no Oriente Médio. Embora tenham repudiado a ação terrorista em Nova
York e em Washington, não poucas vezes se se levantaram para declarar que “a América
colheu o que plantou”. O historiador brasileiro Boris Fausto explica que “não é
preciso ser um especialista em politica internacional para constatar que a
politica externa norte-americana nos últimos 50 anos encerra muitos erros e barbaridades”.
Então, como fica? A vingança americana é legal e deve ser apoiada por todos e a
vingança terrorista é ilegal e deve ser denunciada por todos? Depois (ou
durante?) da vingança da vingança teremos a vingança da vingança da vingança,
isto é, as consequências da vingança americana iniciadas no fatídico dia 7 de
outubro de 2001. E assim, de vingança em vingança vamos destruindo o sentido da
vida e a crença em Deus.
(O
ataque foi contra Deus).
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